Pesquisador do ITP desenvolve maior estudo do mundo sobre envelhecimento e regulação autonômica do coração

03/11/2016

Para Aristóteles, a filosofia nasce do espanto, uma vez que o que causa estranheza pode gerar curiosidade e, assim, novas respostas serem encontradas. Este princípio também pode ser atribuído à ciência, e a prova disso é o estudo do Prof. Dr. Marcos Antônio Almeida Santos, pesquisador do Laboratório de Planejamento e Promoção de Saúde do Instituto de Tecnologia e Pesquisa (LPPS/ITP), que desenvolve aqui, em Sergipe, um trabalho pioneiro no mundo e que teve como ponto de partida o espanto dele ao perceber, enquanto realizava um exame de rotina em pacientes cardiopatas, que pessoas com idade mais avançada, não raro, apresentavam resultados melhores que pacientes com menor idade.

Cardiologista especialista em arritmias cardíacas, o Dr. Marcos Almeida decidiu estudar o fenômeno do envelhecimento e regulação autonômica do coração após perceber, monitorizando o coração dos pacientes por 24h através do Holter, que pessoas com 60 anos de idade apresentavam, algumas vezes, resultados não tão bons quanto os obtidos junto aos que tinham 80 anos.

E foi a frequência recorrente dessa “inversão” do senso comum, como ele mesmo classifica, que fez com que o cardiologista desse início ao estudo, que se tornou a maior casuística do mundo em termos de avaliação da regulação autonômica do coração no domínio do tempo mediante traçados de longa duração, pois atualmente conta com a participação de mais de três mil pessoas com idade entre 40 e 100 anos.

“Perceber isso me causou surpresa. Foi então que comecei a elaborar um modelo que pudesse estudar o processo de envelhecimento, entender porque algumas pessoas estavam mais velhas, biologicamente falando, que outras. A partir desse ponto iniciamos o trabalho com a parte elétrica do coração, e ela me mostrava que o envelhecimento elétrico é precoce, acontecendo antes mesmo de o paciente apresentar doenças que os levassem ao cardiologista”, declarou o pesquisador do ITP.

Marcos Almeida é Prof. Dr. do curso de Medicina da Universidade Tiradentes, docente do programa de Pós-Graduação em Saúde e Ambiente, e Senior Teaching Assistant  in the Harvard T. H. Chan School of Public Health/Estados Unidos.

Os estudos têm sido realizados com a participação de profissionais do ITP, da UNIT e da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Essa pesquisa com a maior casuística em traçado longo do mundo é 100% sergipana, está sendo trabalhada com rigor metodológico e uniformidade, sem qualquer tipo de custo ou financiamento.

ESTUDOS ASSOCIADOS

A observância da quantidade de batimentos cardíacos alterada fez com que o pesquisador estudasse também o fenômeno da neuromodulação do coração, processo que teria como objetivo principal, falando a grosso modo, acelerar e frear o coração através do sistema nervoso autônomo, que nasce no cérebro e representa uma evolução do ser humano com relação aos demais animais.

Esse sistema regulador, segundo explicou o Prof. Dr. Marcos Almeida, mostra que esses dois órgãos, coração e cérebro, “andam” juntos. Quer exemplos dessa união? Quando alguém toma um susto, o coração acelera; quando dormimos ele desacelera. Se o indivíduo tem um problema intestinal, a frequência cardíaca sofre alteração, como explicou o pesquisador.

"Há muitos detalhes por detrás deste mecanismo chamado de ‘variabilidade frequência cardíaca’, que é muito complexo. Existem vários métodos para analisá-lo e um deles é o instrumento denominado Variabilidade de Frequência Cardíaca no Domínio do Tempo, método muito sólido de análise, que pode ser feito em traçados curtos ou longos, como o que estamos fazendo”, disse o professor.

Para tanto, é utilizado o aparelho de gravação de registros eletrocardiográficos denominado Holter. O Prof. Dr. Marcos Almeida informou que este é um tipo de método já validado, que exige conhecimento específico, mas o maior diferencial do nosso estudo é o emprego de uma população de adultos de média idade e de idosos, todos com capacidade funcional e cognitiva satisfatórias”, informou.

O START

As pesquisas foram iniciadas em 2012, tendo gerado dissertação de mestrado (sob orientação do Prof. Dr. Francisco Prado Reis/Unit) e tese de doutorado (sob orientação do Prof. Dr. Antônio Carlos Sobral Souza/UFS), e envolveram pacientes ambulatoriais atendidos no Serviço de Holter da Clínica e Hospital São Lucas, em Aracaju, e que aceitaram, voluntariamente, participar do estudo.

Foram incluídas pessoas de todos os municípios sergipanos e integrantes das mais variadas classes sociais, com idade a partir dos 40 anos e que atendessem os critérios estabelecidos para a questão saúde. A primeira fase foi encerrada e já tem publicação internacional em revista “Qualis A”, ou seja, está classificada entre as publicações científicas de maior prestígio internacional.

Mas a caminhada está só no começo, como afirma o pesquisador. É que, a cada item destrinchado outro aparecia, como por exemplo, o fato de a variabilidade de frequência cardíaca ser um indicador de longevidade, e o de a mulher ter, ao que parece, uma vantagem biológica de cinco anos comparada ao homem. Ou seja, se um homem e uma mulher que possuem as mesmas condições de saúde têm 40 anos de idade, biologicamente, em termos de neuromodulação, ele teria cerca de 45 anos.

Foi percebido que o sexo feminino tem um processo de envelhecimento mais lento que o masculino, mesmo nos casos em que ambos tinham o mesmo problema de saúde. E isso explica, em parte, de acordo com o pesquisador, porque as mulheres vivem mais que os homens. “Apostamos que a modulação autonômica vá nos ajudar a entender o motivo dessa longevidade, porque teoricamente a mulher, até pela estrutura, deveria ser mais frágil que o homem. Quem sabe a partir desta observação resulte uma nova linha de abordagem terapêutica, pois essa vantagem faz parte da genética feminina e não se altera diante de situações como a menopausa”, explicou o pesquisador do ITP.

LONGA JORNADA

O primeiro passo da pesquisa ao longo destes quatro anos foi registrar todas as pessoas com idade entre 40 e 100 anos, agrupando-as de acordo com as características comuns, ou seja, idade e possíveis problemas de saúde, desde que estes não impossibilitassem a participação dos voluntários ativos intelectualmente e funcionalmente. Foram excluídas situações debilitantes, tais como demência, incapacidade de andar sem auxílio, enfermidade com acometimento severo, ou pacientes que estivessem utilizando medicamentos que influenciassem a função autonômica do coração, como betabloqueadores, antiarrítmicos ou digitálicos.

O estudo permitiu elaborar parâmetros de normalidade durante o processo de envelhecimento em ambos os sexos, além de quantificar a influência de enfermidades de elevada prevalência, a exemplo da hipertensão arterial, diabetes mellitus e dislipidemia. A etapa seguinte consiste numa avaliação longitudinal. Após cinco anos, no mínimo, de iniciados os estudos, os voluntários serão novamente observados, agora para saber se houve algum tipo de evento como internamento, surgimento de alguma doença ou até mesmo falecimento.

Junto à equipe de pesquisadores, o Prof. Dr. Marcos Almeida sabe da importância da descoberta e mais, sabe que pode não ver o resultado do que iniciou, uma vez que a pesquisa acabou se tornando uma linha extremamente longa, com várias respostas a serem dadas, mas todas visando o bem-estar do ser humano e a possibilidade de oferecer longevidade à população mundial. “Possa ser que minha vida termine e eu não complete a pesquisa, mas o importante é que demos um grande passo. Só que o maior passo, mesmo, será prosseguir com a pesquisa”, finalizou o pesquisador do ITP, o Prof. Dr. Marcos Almeida.



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