Coordenadora do LabCrom é eleita como um dos 60 cientistas analíticos mais importantes do mundo

02/12/2020

Por Andréa Moura

A coordenadora do Laboratório de Cromatografia Gasosa Bidimensional do Instituto de Tecnologia e Pesquisa (LabCrom/ITP), a Dra. Elina Bastos Caramão, foi escolhida pela publicação global The Analytical Scientist para integrar a Power List 2020 dos 60 cientistas analíticos mais poderosos e influentes do mundo, sendo dez em cada continente. Os vencedores foram indicados pelos leitores da publicação e reduzidos por um painel de juízes independentes. Dra. Elina Caramão também atua como professora da Universidade Tiradentes e é bolsista de Produtividade em Pesquisa 1A do CNPq. A The Analytical Scientist é uma publicação do grupo Texere Publishing, da cidade de Knutsfor, do Reino Unido, existente há oito anos e que tem como missão redefinir os conceitos de conteúdo e comunidade nos mercados científico, técnico e médico.

Um dos motivos para a escolha do nome da pesquisadora do ITP para compor tão seleta lista, de acordo com os jurados, é a contribuição da Dra. Elina Caramão para o desenvolvimento de métodos cromatográficos e de métodos recentes de 2D-GC para caracterização de combustíveis, incluindo biocombustíveis. Embora tenha uma carreira de sucesso, que vem sendo consolidada há mais de três décadas no ensino e pesquisa da Química Analítica, a Dra. Elina Caramão afirmou ter sido pega de surpresa com a escolha que, em anos anteriores, selecionava os 100 melhores, (quantidade que este ano foi reduzida) e feliz por estar entre pesquisadores conhecidos internacionalmente, como os doutores Philip Marriott, da Austrália; Luigi Mondello, da Itália; Elena Stashenko, da Colômbia, e o brasileiro Fernando Lanças, que foi o orientador de doutorado da pesquisadora.

Doutora pela Universidade de São Paulo, Mestre em Engenharia de Materiais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde também graduou-se Bacharel e Licenciada em Química, Dra. Elina Caramão contou que sempre quis trabalhar com pesquisa e graduação, pois, segundo ela, esta é uma maneira de sempre inovar, afinal de contas, não gosta de rotina. Trabalhou ao longo de 37 anos como docente na UFRGS e, desde 1992, é bolsista de Produtividade do CNPq. No ano de 2013, após passar para professora Titular na Federal do Rio Grande do Sul, ela decidiu se aposentar.

“Foi uma decisão difícil, pois, não pretendia parar, porém, acreditava que não tinha muito mais com o que contribuir com a UFRGS. Foi quando recebi o convite, através do Programa de Biotecnologia Industrial (PBI), para trabalhar na Unit. Tirei licença de quatro meses e vim para Aracaju para ver como seria a minha adaptação. Gostei do que vi, gostei da cidade e me senti provocada. Em fevereiro de 2015 me aposentei e no mesmo mês vim para Aracaju de mala e cuia, como dizem os gaúchos”, relembrou a pesquisadora do ITP, que contou, ainda, que muitos dos alunos que orientou agora são colegas de profissão e, alguns deles, também de jornada acadêmica e de pesquisa em Aracaju, a exemplo da Dra. Laiza Canielas Krause e do Dr. Thiago Bjerk.  

Dra. Elina Caramão é membro do corpo editorial da Scientia Chromatographica e revisora dos periódicos: Journal of Chromatography, Ultrasonics Sonochemistry, Journal of Agricultural and Food Chemistry, Energy & Fuels, Fuel (Guildford), Química Nova, Journal of the Brazilian Chemical Society, Talanta (Oxford) e Energy & Fuels (Print). É, também, revisora de projetos de fomento na Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Ainda na área acadêmica, teve o nome citado 6.279 vezes, sendo 1.489 na Web of Science e 2.003 na Scopus. Confira, a seguir, um pouco mais do que conversamos com a Dra. Elina Caramão.

ASCOM ITP - Como a senhora ficou sabendo que estava entre os 60 mais importantes químicos analíticos do mundo e qual a sensação de compor tão seleta lista?

ELINA BASTOS CARAMÃO - Fui informada desta honraria por uma ex-aluna minha que está na Bélgica, trabalhando com um dos pesquisadores que participou da seleção dos indicados deste ano. Foi uma grande surpresa para mim, até porque não tinha ideia do alcance desta premiação. Após me informar melhor e ver que outros grandes nomes internacionais de diversos países estão citados e, também, quando comecei a receber as felicitações, foi que ‘a ficha foi caindo’. Estou muito feliz.

ASCOM ITP - Este reconhecimento internacional seria o “coroamento” de mais de três décadas dedicadas à pesquisa científica e à vida acadêmica?

E.B.C. - É claro que eu quero mais! Acho que o ser humano precisa ter metas para se sentir vivo e atuante. Uma geração de meus ídolos está chegando aos 70 e até 80 anos, e eu tenho acompanhado suas conquistas. Acho que ainda posso pensar (se a COVID permitir) em participações em congressos internacionais, organização de eventos, orientação de alunos e, quem sabe, prêmios e distinções. O mundo não para e eu não quero parar. Por isso, ainda não me sinto “coroada” (risos).

Dra. Elina Caramão (à esquerda), Dr. Fernando Lanças e a Dra. Elena Statchenko, durante abertura do COLACRO XVII, em Aracaju

ASCOM ITP - Quais trabalhos realizados e que a senhora avalia que foram fundamentais para ser escolhida pelo público especializado da The Analytical Scientist?

E.B.C. – Desde que cheguei a Aracaju para atuar no ITP e na UNIT obtive alguns sucessos: recebi, em 2016, a medalha COLACRO como reconhecimento pela minha atuação na área de Cromatografia (na qual ainda atuo). Em 2018 passei para o nível de pesquisadora 1A do CNPq (maior grau), também devido a minha trajetória, mais, ainda, pela coragem em vir para o Nordeste e começar tudo de novo. Extraoficialmente sei que este argumento foi usado na definição de quem iria passar para 1A, uma vez que esta classificação é muito disputada. Já em 2019 consegui trazer para Sergipe um dos congressos mais importantes do mundo na área de Cromatografia, o COLACRO XVII, e esta foi uma das maiores realizações da minha vida. O Congresso foi um sucesso e, por sete dias, esteve em Aracaju a nata da pesquisa na ciência cromatográfica. Mais de 20 pesquisadores estrangeiros de todos os continentes estiveram na cidade e se encantaram por ela. Muitos, inclusive, nunca tinham ouvido falar de Sergipe. Acredito que em consequência disso, e também pela qualidade do trabalho desenvolvido por meus alunos, recebi esta premiação. Junto a mim estão vários pesquisadores que estiveram no COLACRO, confirmando a importância deste evento, como, por exemplo, o Prof. Phillip Marriott (da Austrália e medalha COLACRO de 2019), Prof. Fernando Lanças (idealizador do congresso), Profa. Claudia Zini (Minha ex-orientanda de doutorado e atualmente professora da UFRGS), Prof. Francisco Radler de Aquino Neto (UFRJ), Profa. Elena Statchenko (Colômbia) e o Prof. Luigi Mondello (Messina, Itália). Acredito que minha trajetória e esses relacionamentos internacionais foram importantes para esta nova conquista.

ASCOM ITP - Um dos motivos para a escolha do seu nome, de acordo com o que divulgou a The Analytical Scientist, é a sua contribuição para o desenvolvimento de métodos cromatográficos e de métodos recentes de 2D-GC para caracterização de combustíveis, incluindo biocombustíveis. Por favor, explique para nós o que seria esta metodologia. A senhora é pioneira nesta técnica?

E.B.C. – Este é um assunto bem específico e um pouco difícil de explicar para leigos. Tem muito vocabulário que só a gente entende. A separação 2D na cromatografia representa um enorme avanço na análise de misturas (amostras) muito complexas, que eram erroneamente analisadas por técnicas mais simples. Com a GC-2D vários derivados de pesticidas puderam ser identificados, confirmando a contaminação de ambientes pelo uso indiscriminado destas substâncias. Contaminantes em alimentos, em níveis muito baixos, podem causar grandes dados por seu uso diário (como, por exemplo, os ftalatos) e só podem ser isolados em eficiência em um sistema 2D. Os avanços na área petroquímica (especialmente o petróleo do pré-sal) e de biocombustíveis (misturas diesel/biodiesel, identificação de aditivos, caracterização de bio-óleos) também são evidentes com a GC-2D. Meu grupo foi pioneiro na definição de um método analítico para aplicar aos bio-óleos (junto com a Petrobrás, sempre parceira no desenvolvimento científico e tecnológico). Os primeiros trabalhos com a separação em classes e estudo da classificação espacial são do meu grupo.

ASCOM ITP - Por falar em pioneirismo, conte-nos alguns dos feitos em Química Analítica dos quais a senhora foi a precursora, seja no País ou no mundo.

E.B.C. – O Brasil não é um país que incentive o pioneirismo na ciência. Por isso, a participação da Petrobrás é tão importante. Na minha tese de doutorado comecei um trabalho com compostos nitrogenados em derivados de carvão e xisto. Era muito promissor. A ideia era gerar compostos para a indústria de fármacos baseada na piridina e seus homólogos. Toda a piridina, no Brasil, era e ainda é importada ou sintetizada a partir de insumos importados. Meu sonho de doutoranda era provar ser possível ter este composto, a partir do xisto ou do carvão, com a mesma qualidade. Não consegui por falta de financiamento. Teve um momento em que a Petrobrás investiu (meu primeiro projeto com o CENPES), mas, o governo encerrou as atividades do polo de xistoquímica de São Mateus e o assunto perdeu o interesse. Então comecei a trabalhar com plantas e, com uma delas, a Hibiscus tiliaceus, conseguimos uma boa parceria com a faculdade de Ciências Médicas da UFRGS. Atualmente estão estudando possibilidades de uso medicinal do extrato dessa planta, que foi completamente caracterizado pelo meu grupo. Algumas aplicações veterinárias de óleos essenciais estudados por ex-doutorandas minhas também estão em fase de aplicação em mastite de vacas leiteiras, no Rio Grande do Sul. Mas, sem dúvidas, os estudos usando a Cromatografia Bidimensional têm sido o meu maior destaque.

ASCOM ITP - Atualmente, qual o foco das pesquisas desenvolvidas pela senhora? 

E.B.C. – Atualmente estou trabalhando com biomassa e bio-óleo de plantas brasileiras com ênfase na região Nordeste, especialmente o coco, o café e a cana. Também estou trabalhando com extratos de plantas desta região com finalidade farmacológica ou alimentar: noni, hibiscus, pitanga, mangaba...  Mais recentemente comecei um trabalho com produtos derivados de bactérias do mangue. Em paralelo, desenvolvo projeto com a Petrobras na área de pirólise de biomassa. Faço parte do comitê gestor do INCT de Energia e Ambiente, coordenado pelo prof. Dr. Jailson Bittencourt de Andrade, com alguns estudos sobre as consequências do derramamento de óleo no litoral nordestino.

ASCOM ITPComo a senhora classifica o momento atual da Ciência e Tecnologia?

E.B.C. – Estamos em um momento muito difícil para a ciência em todo o mundo e, mais particularmente, no Brasil. Nunca foi tão importante acreditarmos e incentivarmos a ciência e a tecnologia. Não existe tecnologia sem ciência básica. Não existe ciência básica sem conhecimento adquirido. É muito importante valorizar os docentes, os pesquisadores e os estudantes para que uma ciência séria seja desenvolvida. Só assim ajudaremos o Brasil a retomar o rumo do crescimento e do reconhecimento internacional. Incentivar as agências de fomento e as instituições privadas (empresas e universidades) a financiarem bolsas e recursos para a pesquisas é fundamental. Se a minha trajetória servir de exemplo para isso, acho que terei atingido mais um dos meus objetivos. Tudo isso passa pelo respeito às atividades do professor e do pesquisador.



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